segunda-feira, 15 de março de 2010

O dia internacional das lutas das mulheres passou, mas a luta das mulheres continua!!!


No Brasil, o 8 de março, vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin.Nas primeiras décadas do século XX, o grande tema político foi a reivindicação do direito ao voto feminino. Berta Lutz, a grande líder sufragista brasileira, aglutinou um grupo de mulheres da burguesia paradivulgar a demanda. Ousadas, espalharam de avião panfletos sobre o Riode Janeiro, pedindo o voto feminino, no início dos anos 20!Pressionaram deputados federais e senadores e se dirigiram ao presidenteGetúlio Vargas. Afinal, o direito ao voto feminino foi concedido em 1933por ele e garantido na Constituição de 1934. Mas só veio a ser posto emprática com a queda da ditadura getulista, e as mulheres brasileirasvotaram pela primeira vez em 1945.Em 1901, as operárias, que juntamente com as crianças constituíam 72,74%da mão-de-obra do setor têxtil, denunciavam que ganhavam muito menos do que os homens e faziam a mesma tarefa, trabalhavam de 12 a 14 horas na fábrica e muitas ainda trabalhavam como costureiras, em casa. Comomostra Rago, a jornada era de umas 18 horas e as operárias eram consideradas incapazes física e intelectualmente. Por medo de serem despedidas, submetiam-se também à exploração sexual.Os jornais operários, especialmente os anarquistas, reproduziam suasreclamações contra a falta de higiene nas fábricas, o assédio sexual, aspéssimas condições de trabalho, a falta de pagamento de horas extras, umsem número de abusos. Para os militantes operários, a fábrica era um local onde as mulheres facilmente se prostituíam, daí reivindicarem a volta das mulheres para casa. Patrões, chefes e empregados partilhavam dos mesmos valores: olhavam as trabalhadoras como prostitutas.Entre as militantes das classes mais altas, a desqualificação do operariado feminino não era muito diferente: partilhavam a imagem generalizada de que operárias eram mulheres ignorantes e incapazes de produzir alguma forma de manifestação cultural. A distância entre as duas camadas sociais impedia que as militantes burguesas conhecessem a produção cultural de anarquistas como Isabel Cerruti e Matilde Magrassi, ou o desempenho de Maria Valverde em teatros populares como o de Arthur Azevedo .Como as anarquistas americanas e européias, as brasileiras (imigrantesou não) defendiam a luta de classes mas também o divórcio e o amorlivre, como escrevia "A Voz do Trabalhador" de 1° de fevereiro de 1915:"Num mundo em que mulheres e homens desfrutassem de condições deigualdade... Vivem juntos porque se querem, se estimam no mais puro,belo e desinteressado sentimento de amor".A distinção entre anarquistas e comunistas foi fatal para uma eventual aliança: enquanto as comunistas lutavam pela implantação da "ditadura do proletariado", as anarquistas acreditavam que o sistema partidário reproduziria as relações de poder, social e sexualmente hierarquizadas.No PC a diferenciação de gênero continuava marcante: as mulheres seencarregavam das tarefas 'femininas' na vida quotidiana do Partido.Extremamente ativas, desenvolveram ações externas de organização sem ocupar qualquer cargo importante na hierarquia partidária. Atuavam, por exemplo, junto a crianças das favelas ou dos cortiços, organizavam colônias de férias, supondo que poderiam ensinar às crianças novos valores.Zuleika Alembert, a primeira mulher a fazer parte da alta hierarquia do PC, eleita deputada estadual por São Paulo em 1945, foi expulsa do Partido quando fez críticas feministas denunciando a sujeição da mulher em seu próprio partido.O feminismo dos anos 60 e 70 veio abalar a hierarquia de gênero dentroda esquerda. A luta das mulheres contra a ditadura de 1964 uniu,provisoriamente, as feministas e as que se autodenominavam membros do'movimento de mulheres'. A uni-las, contra os militares, havia uma data: o 8 de Março. A comemoração ocorria através da luta pelo retorno da democracia, de denúncias sobre prisões arbitrárias, desaparecimentospolíticos.A consagração do direito de manifestação pública veio com o apoio internacional - a ONU instituiu, em 1975, o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.Entrou-se numa nova etapa do feminismo. Mas velhos preconceitospermaneceram nas entrelinhas. Um deles talvez seja a confusa históriapropalada do 8 de Março, em que um anti-americanismo apagava a luta detantas mulheres, obscurecendo até mesmo suas origens étnicas.


O artigo é de Eva Alterman Blay.



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